Como Ser Curado na Terapia!

 

É possível falarmos em “cura”?

 

Quem decide quando estarei “curado”?

 

Quanto demora para “curarmos” os sintomas?

 

"Cura" é o mesmo que Alta?

 

Antes de falarmos em Cura, é preciso pensarmos sobre o que deve ser curado em nós. O que tem me incomodado, do que quero me livrar, qual o mal que vem me consumindo e me prejudicando? Quando foi que você percebeu que uma mudança em sua vida e em seus comportamentos são necessários?

 

Cura é um termo cheio de controvérsias e divide opiniões em todas as áreas que utilizam este conceito seja como base, seja como referencial. Para a psicanálise, trata-se neste sentido de um estado subjetivo como qualquer sentimento, dizer-se curado acima de tudo é uma percepção individual que não pode exatamente ser sentida por aqueles que nos escutam. Entretanto sabemos que a vida adquire mais cores e significados quando nos sentimos bem adaptados à nossa realidade, aos sentimentos, propósitos, vínculos afetivos e sociais.

 

Inicialmente deveríamos buscar o entendimento ou mesmo uma aproximação da cura em sua origem. Esta palavra está enraizada em nosso imaginário e sem sobra de dúvidas a religião e posteriormente a medicina são responsáveis por este pensamento.  Falar em cura, como a pensamos nos dias atuais, teve possivelmente seu início na cultura grega (politeísta) e hebraica (monoteísta) que consideravam a restauração da saúde (therapeuo) como algo desejado e somente realizado por um servo de Deus ou dos Deuses (therapon) que poderia assim, "curar e assistir alguém até sua melhora".

 

Muitos séculos depois estamos aqui, talvez inocentes como crianças, buscando ainda que algum Ser iluminado, alguém que detenha o poder e a sabedoria dos títulos ou que algum milagre nos tire definitivamente da angústia. Uma atitude certamente passiva que de forma inconsciente, nos isenta da implicação e responsabilidade de alcançarmos estados mais harmônicos entre nosso mundo interno e a realidade externa especialmente pautados pela ética com os seres humanos e a natureza. Em nome das religiões e da medicina experimental muitas pessoas já foram sacrificadas e muitas atrocidades foram cometidas.

 

Freud pensou muito sobre isso em sua obra O Mal estar na Civilização e mesmo antes, ao refletir sobre as causas dos nossos sofrimentos, ele  indicou a existência de dois mundos reais e que são desconhecidos pelos homens sendo um “fora” e outro “dentro” e psíquico. Para Freud entretanto, somente a realidade interna poderia ser de fato conhecida por meio de uma profunda experiência analítica, todo o restante seria extremamente difícil de captarmos e processarmos em sua completude.

 

Não podemos deixar inclusive de considerar que parte do nosso mundo interno encontra-se projetado na realidade externa que compartilhamos e assim, ver algo que nos incomoda nos outros, é basicamente desvelar quem somos verdadeiramente. Um pouco mais tarde, Lacan postula relações mais complexas entre o sujeito e o real ajudando-nos a expandir nosso entendimento e reflexões sobre as relações intrínsecas e extrínsecas entre esses dois mundos.

 

Assim, teríamos os sintomas, as fantasias, a sexualidade e os desejos  na fricção entre essas realidades onde o sujeito experimentaria sua subjetividade. Esse é o campo riquíssimo de exploração da psicanálise e que, para além dos seus estudos, convida o candidato “desejante” à uma análise a se perceber nestas relações complexas, num mergulho de autodescoberta sobre a sua demanda no mundo.

 

Mas, onde fica então a cura, para que fazer análise se essa promessa não pode ser avalizada por um analista?

 

Bom, neste caso infelizmente terei de desconstruir um pouco a expectativa sobre o processo analítico, de uma maneira ou de outra não podemos prometer a cura para nossos pacientes porque a "cura" simplesmente não existe! O nosso querido Dr. Dráuzio Varella, aproximando-se muito do pensamento Freudiano, disse certa vez: “Somo todos incuráveis”, eu particularmente o acompanho neste pensamento.

 

Porém, recomendo um pouco de parcimônia, não é o momento de simplesmente desistirmos de nossa análise ou de nos sentirmos desmotivados para o início de uma psicoterapia. Para seguirmos adiante, é preciso ressignificar o modelo médico solidificado em nossa cultura que busca a todo custo eliminar as doenças e os seus sintomas. Quando falamos em análise portanto, a saúde e a cura ganham um novo contorno, veja a seguir:

 

Por mais estranho que pareça, para a psicanálise, o conceito de cura não é a finalidade do tratamento em si, mas surge como um efeito secundário, sem prazo determinado para acontecer, sentido e anunciado pelo próprio “paciente”, também chamado aqui de analisando. Em alguns casos a cura seria anunciada pelo próprio analista que propõe a "alta" das sessões, mais um termo médico com sentido diferente dentro da nossa abordagem.

 

Apesar do "desejo de cura ser o combustível inicial de uma análise", mais cedo ou mais tarde perceberemos que esse ideal, se não impossível de alcançarmos na condição humana, é minimamente algo do campo da fantasia e dos processos mobilizadores da transferência analítica.

 

Se não podemos alcançar a cura no real sentido da palavra, o que nos resta?

 

O terapeuta escuta os sofrimentos do seu paciente, o ajuda a nomeá-los e o acompanha neste caminho muito tortuoso pelas causas que o impedem de realizar os seus desejos. Em uma terapia muita vezes é preciso piorar, e haja coragem para isso, para então melhorar, Freud mencionou que é preciso “lembrar para esquecer” e seguir em frente.

 

Este é o horizonte que a terapia oferece para a manifestação dos sintomas psíquicos, ao mesmo tempo que queremos a cura não estamos prontos para o desapego dos sintomas que de alguma maneira vem nos dando contorno e identidade frente ao mundo. Sofrer por algo ou por alguma coisa é também ser alguém, "o sofrimento é o Ser em si”.

 

Neste sentido, o quanto estamos preparados para deixarmos de "ser alguém que sofre" e que recebe algum reconhecimento por isso, para nos tornarmos indivíduos que partem em direção a uma vida mais livre? Você estaria disposto a desistir do seu sofrimento e reinterpretar sua existência por completo? Com relação a isso, certamente a psicanálise pode contribuir.


Todo processo de análise deve propor, segundo Wilfred Bion, o estabelecimento de uma função psicanalítica da personalidade. Isso possibilita que a parte saudável do self aflore e a parte doentia e instável perca protagonismo especialmente como via única de expressão e descarga da Libido. Aqui nos deparamos com uma das muitas chaves da técnica que Freud fundou, não é por acaso que há mais de 100 anos a psicanálise vem avançando e se faz presente nas mais sérias instituições de ensino e pesquisa no mundo.

 

Ou seja, ao final de uma terapia você pode sentir-se o terapeuta de si mesmo e capaz de conduzir sua própria vida dentro de limites internos e externos que são impostos à todos nós. Me parece algo mais maduro e tangível que a ideia do desaparecimento simples de um sintoma ou dos sofrimentos por intermédio de um milagre operado por terceiros.

 

Caso você busque uma terapia, procure não estabelecer limites rígidos ou chegar à um lugar e objetivo específicos. O percurso da análise é sim transformador e pode trazer surpresas interessantes sobre seus potenciais e desejos. Algo que ainda pode não ser bem claro mas que, quando descoberto, fará você se sentir muito próximo daquilo que entendemos como um “Ser Curado”!

 

Acima de tudo cuide-se hoje e sempre, você é a sua melhor companhia.

 

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2016 por patrícia cividanes