• Leonardo Maia

Ciúme e sofrimento psicológico

Quando a pessoa torna-se um satélite do outro, buscando controlar o incontrolável.



Quais os níveis de ciúme?


Sentir ciúmes é normal ou patológico?


Qual o origem dos ciúmes?


Histórica e socialmente, o amor parece ser o suporte e a pedra angular para as relações, nos defrontando com a lógica de que “se não há amor e fidelidade, não há relação”. De acordo com o filósofo e sociólogo Bauman, (2004), é inegável que a fluidez dos aplicativos de relacionamentos e as exposições às redes sociais estão modificando a maneira como as relações são construídas e apresentadas.


Percebemos que, ao mesmo tempo em que os meios digitais e a liberdade de escolha oferecem uma flexibilidade para pessoas construírem seus próprios modelos, eles podem entrar em choque com as diversas condições introjetadas de amor, que são estabelecidas por meio das dimensões da vida afetiva de cada um. Por isso, a possibilidade de manter relações amorosas permanentes e únicas ainda parece uma escolha que representa a privação da liberdade, ao mesmo tempo em que se caracteriza como uma prova de fidelidade.


Freud, em seu texto “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921, nos traz que a pessoa quando está apaixonada, se coloca em uma posição de humildade, investindo a maior parte de sua libido na pessoa amada. Consequentemente, sua autoestima e o amor próprio ficam rebaixados, gerando angústias, ansiedades, inquietações e sentimentos que podem acabar levando a pessoa imersa nessa relação a um processos de anulação de si mesma e ao adoecimento psicológico.


A sensação de realização ao viver um grande amor ideal, tipificado como eterno, metafísico, sublime e exclusivo, parece ser uma tarefa fácil e que está ao alcance de qualquer pessoa razoavelmente adulta, como acontece nos roteiros românticos vividos nos filmes de Hollywood.


Quando essa fantasia falha, porém, os problemas nos relacionamentos que antes pareciam perfeitos começam a aparecer. É quando surgem as primeiras cobranças: “Quando não realizamos o ideal imaginário do amor, buscamos explicar a impossibilidade culpando a nós mesmos, aos outros ou ao mundo, mas nunca contestando as regras comportamentais, sentimentais, ou cognitivas que interiorizamos quando aprendemos a amar” (COSTA, 1998, p. 34-35).


Por isso, muitos pacientes chegam a clínica querendo entender a causa de seus ciúmes, mas para além da busca pela suposta razão atual do ciúme, precisamos ajudar o paciente a entender em qual posição subjetiva esse sentimento o mantém refém, seja diante do outro, da relação amorosa ou da vida.


Nesse processo, muitas vezes o paciente percebe que sua situação amorosa está ligada intensamente a uma fantasia de extremo desvalor que a pessoa ciumenta repete, muitas vezes sem perceber, em outras relações.


Constata-se que a fantasia se concretiza na clínica psicanalítica como um recurso relevante para a compreensão do sintoma, demonstrando conteúdos inconscientes que poderão ajudar na construção de significados durante a análise, uma vez que para Freud o sentimento de ciúme não é racional e sim uma fantasia de vulnerabilidade e fragilidade que ganha força na figura de um rival, geralmente imaginado como mais amável, educado, bonito, enfim, superior em vários aspectos, gerando também uma enorme culpa, que pode ser introjetada em pensamentos como: “eu poderia ter evitado isso”, “ aconteceu pois eu não dava o que meu parceiro (a) queria”.


Esses e outros pensamentos de desvalorização são resquícios inconscientes de relações anteriores, muitas vezes infantis, e que ainda precisam ser elaboradas e ressignificadas durante o processo terapêutico para serem superadas, dando, assim, lugar à possibilidade da vivência de um amor saudável.


Segundo a Psicanálise, existem três níveis de ciúmes que podem ser trabalhados na clínica, vamos entender melhor sobre eles:


1. Normal ou competitivo; Etimologicamente, a palavra ciúmes tem raízes no latim (zelumen) e grego (zelosus), e em seu sentido original refere-se a um sentimento de consideração, zelo, proteção e cuidado para com o outro.


De acordo com Freud, esse tipo de ciúme é dado como normal e vem do sentimento de dor pela perda da pessoa amada, se assemelhando à dor de um luto. Um exemplo de ciúme normal seria o da mulher que sente por não ter mais a seu lado o homem que ama e por isso se vê devastada, tomando sorvete direto no pote e chorando com as amigas pelo Whatsapp, prometendo a elas e a si mesma nunca mais se apaixonar.


Em alguns casos o ciúme pode também estar ligado a um sentimento de inveja, como os casos de ciúmes competitivos vividos entre colegas de trabalho, por exemplo.

Nessas situações, algumas pessoas acabam revelando sentimentos hostis pelos colegas, vendo-os como rivais que roubam a atenção e o reconhecimento que a outra pessoa julga ser merecedora, gerando injúrias, fofocas e perseguições, situações que aparecem com muita frequência em ambientes corporativos.


Em comum com o ciúmes do luto e da perda da pessoa amada, o ciúmes competitivo gera angústia porque toca na nossa ferida narcísica. Ferida narcísica é um conceito de Freud baseado na mania de grandeza humana, quando nos cobramos sermos sempre os melhores em tudo, mesmo que o nosso “eu” sequer seja mestre em sua própria casa, pois muitas vezes não controlamos nem a nossa própria vida psíquica, mas nos achamos no direito de controlar os desejos do outro, direcionando-os sempre para o nosso próprio bem estar.


2. Ciúmes projetado; Aqui podemos enfatizar a famosa frase: “O homem é escravo do que fala e dono do que cala. Quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro do que de João”, frase atribuída por muitos a Freud.


Quando o excesso de controle e os ciúmes tomam conta da pessoa, muitas vezes existe nela um desejo, muitas vezes negado, em viver o mesmo que ela supõe que o seu parceiro esteja fazendo. Sobre esse tipo de ciúmes, Zimmerman,(2001), nos afirma que a pessoa enciumada exalta sua própria exigência de fidelidade, que a rigor, raramente cumpre. Quando o paciente projeta seu desejo oculto no seu parceiro, ele, de alguma forma, alivia sua culpa pela infidelidade, seja vivida no encontro real com o outro, seja desfrutada apenas em sua fantasia.


Por isso podemos ver que muitas relações amorosas nutrem um sentimento de posse sobre o corpo, o sexo e o desejo do parceiro afetivo. Para entendermos a razão desse comportamento, vamos conhecer um dos conceitos mais abordados na psicanálise freudiana e presente também na questão dos ciúmes: a sexualidade.


A sexualidade para Freud é considerada como uma função corpórea ainda mais ampla, tendo o prazer como sua meta e só depois vindo a servir às finalidades de reprodução. Para ele, os impulsos sexuais são todos aqueles impulsos afetuosos e amistosos aos quais aplica-se o significado ambíguo da palavra “amor”. Dessa forma, Freud aponta que, “uma das formas através do qual o amor se manifesta – ao amor sexual – nos proporcionou nossa mais intensa experiência de uma transbordante sensação de prazer, fornecendo-nos assim um modelo para nossa busca pela felicidade”.


Assim, ao não refletirmos sobre o ideal de amor e pela falta de liberdade sexual que fomos ensinados, e nos vermos levados a reproduzir a dinâmica dessas relações, é natural que apareçam estranhamentos em relação aos nossos reais desejos, incluindo os ciúmes, distorcendo as situações e as emoções, fazendo com que a potencialidade e o desenvolvimento afetivo fiquem prejudicados por um sentimento avassalador de posse, quando na verdade pode existir o desejo de liberdade.


Esse tipo de ciúmes quando é projetado para o outro, altera nossas escolhas, rotas e até mesmo o curso dos pensamentos e desejos, pois a relação muitas vezes não se sustenta quando o casal vive existindo em função exclusiva um do outro.


3. Ciúmes delirante; Nesses casos, a pessoa atingiu um nível de ciúmes que impossibilita uma relação amorosa saudável. Ela anula completamente o outro e foca a dinâmica da relação apenas em suas próprias relações, distorcendo de maneira irreal o que acontece à sua volta.

Freud nos traz que esse sentimento de ciúme “Também provém de reprimidas inclinações à infidelidade, mas os objetos dessas fantasias são do mesmo sexo do indivíduo.” Dessa maneira, fantasias homossexuais, que muitas vezes não são aceitas e entendidas pela própria pessoa, são projetadas para o parceiro afetivo. Quando isso acontece, e a pessoa julga o outro com base em seus próprios desejos que não puderam ser satisfeitos, a relação vive imersa em uma espécie de perseguição ou paranoia. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) e a Classificação Internacional de Doenças e Problemas de Saúde Relacionados (CID-10), a paranoia, ou transtorno delirante do tipo ciumento, acontece quando a presença de delírios persistem por pelo menos um mês, desde que não sejam percebidos como bizarros, isto é, podem ser aceitos socialmente e que não estejam associados a outra questão orgânica. Por exemplo, quando um homem acusa a esposa de estar interessada no vizinho, mesmo quando não existe a menor possibilidade de tal fato e ele passa a perseguir sua mulher e até mesmo o suposto amante, ele pode estar agindo assim, porque na verdade é ele mesmo que está interessado, mesmo que isso seja inaceitável social e moralmente por ele. Por isso, esse tipo de ciúme talvez seja o mais complexo para ser acessado e trabalhado na prática clínica, logo, também causa um grande adoecimento psíquico e até mesmo crimes passionais. Como a terapia pode te ajudar?

Diante de tantas formas de expressarmos esse sentimento, precisamos entender o que é ciúmes para nós antes de pensarmos no que tem por trás do ciúme do outro. Apenas entendendo o que esse sentimento quer nos dizer é que nossas relações amorosas podem vir a serem âncoras leves e seguras, no mar de oferta e procura das relações contemporâneas, nos permitindo viver o amor e o encontro com o outro como uma vivência mais saudável.


A escuta de um profissional em um processo psicoterápico permite a você um espaço para se (re)encontrar no seu mais íntimo desejo, entendendo o que se passa com você.


Caso você se veja nessa breve reflexão, saiba que a psicoterapia pode auxiliar você a compreender melhor a função do ciúme na sua relação e como você pode ressignificar a situação em que se encontra. Para quem mora fora do Brasil ou em regiões afastadas dos grandes centros, a Psicoterapia online é bastante promissora.

Se ao ler o texto você percebeu que vive algo semelhante ou que alguém próximo vem passando por isso, compartilhe! Acredite em seu potencial de mudança. Gostaria de mais informações ou de agendar uma entrevista para iniciar uma terapia? Entre em contato e invista no melhor para você. Clique aqui para agendar uma sessão ou enviar um e-mail e WhatsApp.


Referências:

BARROS, M. J. S. A problematização Freudiana sobre o amor na dinâmica familiar: Ressonâncias Românticas? 2007. 106 f. Dissertação (Mestrado em Família na Sociedade Contemporânea) – Universidade Católica do Salvador, 2007.

BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Ed., 2004.

CID-10. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 : casos clínicos de adultos : as várias faces dos transtornos mentais. (1998). Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

DSM-IV: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 4 ed. (1995). Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

FREUD, S. Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade, In (Paulo César de Souza, Trad.), Obras Completas. (Vol. 15, pp. 209-224). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Publicado em 1922).

FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu, In (Paulo César de Souza, Trad.), Obras Completas. (Vol. 15, pp. 13-113). São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Publicado em 1921).

ZIMERMAN, D. E., OSORIO, L. C. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. Porto Alegre : Artmed, 2001.

https://www.gramatica.net.br/origem-das-palavras/etimologia-de-ciume/