• Leonardo Maia

Por que o Mundo tornou-se Polarizado?


A “descrença”, especialmente dos jovens, parece estar ancorada em uma promessa não cumprida, a falta do que foi idealizado no passado não pode mais mobilizar os desejos!

Sempre que acompanho o noticiário, não deixo de me sentir angustiado, acontece o mesmo com vocês? A sensação que tenho, é que tudo vem piorando em uma “Espiral Decadente” passando pelas instituições e personalidades. Quem se salva no final das contas? Escolher um lado parece essencial, mas fica o alerta e a questão:


Como o mundo se tornou Polarizado?


Em uma pesquisa pessoal sobre este tema em meados de 2018, eu observava o impacto da arte nas pessoas e na cultura de diversos países e foi quando me deparei com o pensamento de alguns autores contemporâneos sobre a radicalização presente no Mundo. Com esta abertura conceitual, busquei apaziguar um pouco a minha apreensão sobre tal Polarização e resolvi dividir aqui um pouco desta experiência. Mesmo que eu não tenha chegado à nenhuma solução, pelo menos pude compreender alguns pontos de vista que me fizeram ficar mais a vontade com o que eu sentia na época.


Escutando uma entrevista do Dr. Kunglansky da Universidade de Maryland, fiquei curiosos quando ele afirmou: “o que vem acontecendo no mundo não tem à ver com as informações que nos alcançam e muito menos com os fatos reais! A origem da coisa em si está em nós, agentes políticos!”


Bom, mas o que é política? Segundo seu entendimento somos seres políticos pois a política é também uma forma de julgamento, as escolhas políticas estarão sempre atreladas as nossas necessidades psicológicas.


Veja bem, quando estamos ansiosos, somos atraídos por mensagens que nos oferecem certezas na busca de alívio para o fluxo intenso de pensamentos no cérebro. Encontrar uma resposta rápida pode trazer uma certa tranquilidade mas também pode ser algo perigoso! Ele chamou isso de Closure (fechamento), e nada mais é do que a nossa mente nos pregando uma peça!


Na Alemanha, antes da II Guerra, haviam milhões de desempregados, o discurso nazista trouxe uma resposta rápida: o nacionalismo, estado centralizador e os Arianos, posteriormente houve inclusive uma melhoria na economia reforçando a crença de que as pessoas tinham feito a escolha certa. Sabemos como tudo terminou!


Fica claro que não funcionamos muito bem na incerteza, já que nossas vidas são baseadas em decisões o tempo todo. Para psicanálise por exemplo, todos temos um terrorista extremista e um pacifista interior.


Vamos admitir: nós estamos com medo, assustados, acuados, loucos por uma solução diante desta sensação que o mundo está caótico!


As saídas oferecidas são ideologias fundamentalistas que trazem certezas em enredo bastante simplório ou um “salvador” que pode mudar tudo como por mágica. Seria ótimo se isso fosse verdade, mas o que dizer do Brasil? Nós teríamos algum fundamentalismo emergente? Sim, caminhamos para uma invasão da religião na política, e não falo somente da vertente neopentecostal, alguém já se perguntou o motivo te haver um crucifixo dentro da sala do supremo tribunal federal?


A polarização que tomou conta do país é parte desta síndrome psicológica, não há espaço para ambiguidade, devemos aceitar que o que nos deixa ansiosos é a complexidade! Aceitá-la e ao mesmo tempo buscar valores que nos inspirem, pode não ser exatamente fácil mas, parece que esta instabilidade é que pode nos equilibrar novamente.


“Quando ignoramos pontos de vista criamos pontos cegos, as certezas nos levam ao estreitamento sempre e devemos suspeitar das soluções rápidas.”


Somado à isso, vale mencionar que para Slavoj Zizek, o fundamentalismo surge com a falência demagógica das alternativas de esquerda. Segundo este filósofo, há uma descrença no sistema democrático desencadeada pelo próprio jogo político e, isto precedeu o extremismo em todos os países que ele estudou. Claro que é uma afirmação polêmica, mas de novo, não vamos ter medo da complexidade!


O discurso radical religioso vem assumindo participação política em um estado que deveria ser laico! Religião é importante para muitas pessoas, mas existem os direitos civis que podem mediar as diferenças já que os códigos de conduta mudam com o tempo e com a evolução política e social.


A “descrença”, especialmente dos jovens, parece estar ancorada em uma promessa não cumprida, a falta do que foi idealizado no passado não pode mais mobilizar os desejos! Assim, jovens que teoricamente vivem em uma democracia estável, viram-se contra o estado e atacam difusamente inocentes e minorias que não tem número suficiente para defesa. Nesta crise existencialista, no melhor dos cenários, entregam-se ao consumismo como tentativa de satisfação, assistem à programas supostamente "reais" mas que são manipulados e às pós-verdades.


Eu sei que é difícil ficar angustiado, acredite, já passei e passo por isso. Sei também que uma solução simples ou o ataque ao outro estará sempre ao nosso alcance. Qual é a saída então? Receio que seja algo ainda desconhecido, possivelmente fruto da criatividade coletiva multicultural e plural.


Usando o exemplo da clínica, quando iniciamos um percurso analítico com alguém, não sabemos por onde vamos seguir, a técnica ilumina o caminho mas somente acompanhamos os passos do analisando em uma espiral dialética! Não sei se de fato chegaremos a uma resposta e essa promessa também não pode ser cumprida por nós analistas. De qualquer forma a riqueza na multiplicidade de saídas não pode ser ignorada!


Minha tentativa foi provocar em você uma reflexão de que nem toda teoria basta, nem sempre vamos resolver os conflitos pelos quais passamos! Aceitar a angústia e a complexidade, estar diante do abismo como saída, é também saber que o salto não vai nos aniquilar pois estaremos juntos na descoberta do novo!


Paz!


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