Química ou Reativação Traumática?
- Leonardo Maia

- 26 de jan.
- 6 min de leitura
Por que seus relacionamentos, sempre acabam da mesma forma?
Uma análise profunda sobre relacionamentos, trauma e o caminho para a transformação com a psicoterapia.
Sua história de relacionamentos parece um filme repetido, com um roteiro de idealização, caos e exaustão emocional? Aquela "química" magnética que te atrai para o mesmo ciclo não é azar ou destino. É um padrão psíquico profundo que a psicanálise chama de compulsão à repetição.
1. O Paradoxo da Repetição: A Tentativa de Cura que Fere
Sigmund Freud, em seu revolucionário ensaio "Além do Princípio do Prazer" (1920), deparou-se com um fenômeno que desafiava a lógica: por que os soldados da Primeira Guerra reviviam os horrores do front em seus pesadelos? Por que as pessoas recriam, em suas vidas, cenários dolorosos? Ele concluiu que se tratava de um impulso inconsciente para reviver experiências traumáticas, na esperança de, desta vez, dominar a situação e alcançar um desfecho diferente . É o inconsciente tentando, de forma desajeitada, "consertar" o passado no presente.
O que torna esse conceito tão perturbador é que ele desafia o princípio do prazer, que deveria nos afastar do sofrimento. Mas não fazemos isso. Repetimos. Novamente e novamente. Freud teorizou que essa compulsão era uma expressão da pulsão de morte, uma força primitiva que nos impele em direção ao caos, à repetição e, em última análise, ao retorno a um estado anterior. O paradoxo é que, ao invés de curar, essa estratégia quase sempre perpetua o sofrimento, reabrindo as mesmas feridas. É uma busca por um final feliz para uma história que já começou com o roteiro errado.
2. O Corpo Guarda a Pontuação: Como o Sistema Nervoso Aprende Padrões
Seu sistema nervoso foi condicionado desde a infância a um padrão específico de vínculo. Se você cresceu em um ambiente de instabilidade, com pais emocionalmente distantes ou em conflito constante, seu corpo aprendeu que o amor está associado ao caos. Como afirma Bessel van der Kolk em "O Corpo Guarda a Pontuação", o trauma não é apenas uma história que contamos sobre o passado; é uma marca impressa em nossa mente, cérebro e corpo . O que é familiar, mesmo que doloroso, é interpretado pelo sistema nervoso como "seguro" ou "lar".
Quando você conhece alguém novo, seu sistema nervoso escaneia o ambiente em busca desse padrão. Uma pessoa emocionalmente distante? Seu corpo se ativa. Alguém que alterna entre carinho e crítica? Seu coração dispara. Essa cascata de hormônios de estresse (adrenalina, cortisol) é confundida com "química" e "paixão avassaladora". Você não está se apaixonando pela pessoa, mas pela familiaridade do trauma. É como se seu corpo tivesse aprendido uma linguagem de perigo e confundisse essa linguagem com a linguagem do amor.
3. Ativação Traumática vs. Atração Genuína
É crucial aprender a diferenciar a ativação do caos da atração pela segurança.
Ativação Traumática (A "Química" do Caos):
É a montanha-russa de euforia e ansiedade. Seu corpo está em modo "luta ou fuga". Você se sente obcecado, ignora sinais de alerta e faz concessões que ferem sua autoestima. A intensidade é tão forte que obscurece seu julgamento. Você reinterpreta sinais de desinteresse como "desafios" ou "mistérios". Você passa horas analisando mensagens, sentindo o coração acelerar a cada notificação. Há uma urgência, uma sensação de que você precisa "consertar" a situação, "conquistar" o afeto, "transformar" a pessoa.
Neurobiologicamente, seu corpo está inundado por hormônios de estresse. A amígdala, responsável pela detecção de ameaças, está em overdrive. O córtex pré-frontal, responsável pelo pensamento racional, está sendo suprimido. Você está operando a partir de um lugar de puro instinto de sobrevivência, não de escolha consciente.
Atração Genuína (A "Calma" da Segurança):
É uma sensação de paz e estabilidade. A pessoa é consistente e confiável. Seu corpo libera ocitocina, o "hormônio do vínculo", e você se sente seguro para ser você mesmo. Não há urgência. Não há drama. Você pode respirar. Você pode pensar claramente. Você não precisa de máscaras ou estratégias.
Para um sistema nervoso viciado em adrenalina, essa calma pode parecer entediante. Você pode interpretar a ausência de drama como "falta de faísca". Você pode sentir uma inquietação subjacente, um desejo de "agitar as coisas". Seu corpo está tão acostumado com a ativação que a paz parece estranha, até mesmo assustadora. É como se seu sistema nervoso não reconhecesse a segurança como atraente porque nunca aprendeu essa linguagem.
4. O Papel Transformador da Psicoterapia
Você não está condenado a repetir esse padrão. A psicoterapia, especialmente com uma abordagem psicanalítica e clínica, é a ferramenta mais poderosa para interromper o ciclo.
Consciência e Nomeação: A terapia te ajuda a enxergar e nomear o padrão. Você aprende a diferenciar a ativação da atração, conectando suas escolhas atuais com suas experiências passadas. Dar nome ao que se sente é o primeiro passo para ter poder sobre isso. Quando você consegue dizer "Estou em ativação traumática, não em amor", você cria uma distância entre você e o padrão. Essa distância é liberdade.
Um Novo Modelo de Relação: O setting terapêutico oferece uma relação segura e consistente. Com um terapeuta empático e confiável, seu sistema nervoso começa a aprender que é possível se vincular sem perigo, criando um novo modelo interno de relacionamento. Essa aliança terapêutica funciona como uma base segura a partir da qual o mundo pode ser explorado de uma nova maneira. É nesse espaço que você experimenta, talvez pela primeira vez, o que é ser ouvido sem julgamento, respeitado em seus limites, e valorizado por quem você é.
Reprocessamento do Trauma:
A terapia permite acessar e reprocessar as memórias e emoções que alimentam a compulsão. Ao elaborar o trauma original em um ambiente seguro, ele perde a força de se repetir no presente. Você pode finalmente fazer o luto pelas relações que nunca teve, liberando-se da necessidade de recriá-las em seus relacionamentos amorosos. Você pode chorar a dor da infância em vez de reencená-la na vida adulta.
5. Caminhos para a Resolução: Reeducando Seu Cérebro e Corpo
Além da terapia, você pode começar a reeducar seu sistema nervoso hoje:
1. Mapeie o Padrão: Descreva seus últimos relacionamentos. Quais eram os comportamentos e os problemas recorrentes? A clareza te dá poder.
2. Identifique os Gatilhos: O que te atrai? A distância? A intensidade? Reconhecer seus gatilhos em tempo real te permite fazer uma pausa antes de agir.
3. Aprenda a Tolerar a Calma: Este é talvez o passo mais desafiador. Você precisa aprender a tolerar a calma, a segurança e a previsibilidade. Você precisa resistir ao impulso de "agitar as coisas" ou de buscar drama. Quando sentir a paz de uma conexão segura, respire fundo e diga a si mesmo: "Estou seguro. Calma é bom". Práticas de mindfulness e técnicas de regulação do sistema nervoso podem ser extremamente úteis aqui.
4. Pratique a Autorreflexão Consciente: Em vez de perguntar "Sinto química?", pergunte-se: "Eu me sinto estável? Respeitado(a)? Eu posso ser eu mesmo(a)? Meu corpo está relaxado ou tenso?".
5. Construir Relacionamentos Seguros: Procure por pessoas que são emocionalmente disponíveis, consistentes e respeitosas. Essas pessoas podem não causar aquela "química" imediata, mas elas oferecem algo muito mais valioso: segurança. Seu sistema nervoso aprenderá gradualmente a reconhecer a segurança como atraente.
6. A Importância da Continuidade Terapêutica
É importante notar que a mudança não é linear. Você pode ter períodos de progresso seguidos por períodos de regressão. Você pode encontrar-se caindo nos padrões antigos. Isso é normal. É por isso que a continuidade da psicoterapia é tão importante. Um bom terapeuta o ajudará a navegar essas flutuações, a entender o que as causou e a retornar ao caminho.
A psicanálise oferece um espaço para explorar essas regressões em profundidade, entendendo as raízes profundas do padrão e transformando sua relação com ele.
7. Esperança e Transformação
Aqui está a verdade que pode transformar sua vida: você não está condenado a repetir seus padrões para sempre. A compulsão à repetição é poderosa, mas você é mais poderoso. Com consciência, apoio terapêutico e paciência, você pode reeducar seu sistema nervoso. Você pode aprender a reconhecer a segurança como atraente. Você pode escolher relacionamentos que o(a) alimentam em vez de o(a) drenar.
A jornada não é fácil. Requer coragem para confrontar suas feridas. Requer humildade para admitir seus padrões. Requer paciência para permitir a mudança. Mas do outro lado dessa jornada está uma vida de relacionamentos mais saudáveis, mais autênticos e mais satisfatórios.
Se você se reconheceu neste texto, considere procurar um psicólogo ou psicanalista. A psicoterapia não é um sinal de fraqueza; é um ato de coragem e autocuidado. É um investimento em sua saúde mental e em seu futuro relacional.
Você está pronto para quebrar o ciclo e construir relacionamentos baseados na segurança e no respeito? Agende uma consulta e vamos juntos explorar seus padrões, entender suas raízes e construir um novo caminho em direção a relacionamentos mais saudáveis e autênticos.
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