top of page

Para as Coisas Mudarem, Você Precisa Mudar: A Transformação Começa de Dentro

  • Foto do escritor: Leonardo Maia
    Leonardo Maia
  • 22 de jan.
  • 7 min de leitura

Como a responsabilidade subjetiva, a teoria paradoxal da mudança e o locus de controle interno podem transformar sua vida!


Quantas vezes você já desejou que as coisas ao seu redor mudassem? Que o relacionamento melhorasse, que o trabalho fosse diferente, que as pessoas te compreendessem mais? É natural querer que o mundo externo se ajuste às nossas necessidades. Mas há uma verdade incômoda que a psicologia e a psicanálise nos revelam: para que as coisas mudem, é preciso que você mude. Para que as coisas melhorarem, é preciso que você melhore.


Essa frase pode soar como autoajuda rasa à primeira vista, mas carrega uma verdade profunda sobre a estrutura psíquica humana. Não se trata de otimismo ingênuo ou de culpabilização individual, mas de compreender que a mudança externa começa, inevitavelmente, na mudança interna. E isso tem fundamento teórico sólido em diferentes abordagens da psicologia clínica e da psicanálise.


A Responsabilidade Subjetiva na Psicanálise


A psicanálise lacaniana traz um conceito fundamental para entender esse processo: a responsabilidade subjetiva. Diferente da culpa moral ou da responsabilidade jurídica, a responsabilidade subjetiva diz respeito à implicação do sujeito em seu próprio sofrimento. Jacques Lacan afirmava que "o sujeito é responsável por sua posição no inconsciente". Mas o que isso significa na prática?

Significa reconhecer que, mesmo quando não temos controle sobre os acontecimentos externos, temos uma posição subjetiva diante deles. Essa posição não é consciente, está enraizada em nossa estrutura psíquica, nos nossos padrões inconscientes de funcionamento. Quando uma pessoa repete sempre os mesmos tipos de relacionamentos destrutivos, por exemplo, não é apenas "má sorte" ou "escolha errada de parceiros". Há algo na estrutura interna dessa pessoa que a leva a ocupar sempre o mesmo lugar simbólico nessas relações.

A pesquisadora brasileira em psicanálise, Tania Coelho dos Santos, professora da UFRJ, explica que "a responsabilidade subjetiva implica em reconhecer que o sujeito não é apenas vítima das circunstâncias, mas também agente de sua própria história, ainda que de forma inconsciente". Esse reconhecimento é doloroso, porque nos tira da posição confortável de vítima passiva e nos convoca a olhar para nossa parte na repetição dos padrões.

Enquanto você não se apropriar da sua parte na repetição dos mesmos padrões, nada muda de fato. Você pode trocar de emprego, mudar de cidade, terminar um relacionamento e começar outro, mas se a estrutura interna permanece intacta, o cenário se repete. É como trocar os móveis de lugar na mesma casa: a arquitetura continua a mesma.


A Teoria Paradoxal da Mudança na Gestalt-Terapia


A Gestalt-terapia, desenvolvida por Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman nos anos 1950, oferece outra perspectiva fundamental sobre a mudança: a teoria paradoxal da mudança, formulada por Arnold Beisser em 1970. Segundo essa teoria, a mudança ocorre quando a pessoa se torna o que realmente é, não quando tenta se forçar a ser algo diferente.

Esse é um dos paradoxos mais profundos da psicoterapia: quanto mais você tenta se forçar a mudar, mais permanece o mesmo. Quanto mais aceita quem você é agora, com todas as suas contradições e limitações, mais espaço se abre para a transformação genuína.

Beisser escreveu: "A mudança ocorre quando alguém se torna o que é, não quando tenta se tornar o que não é. A mudança não acontece através de uma tentativa coercitiva do indivíduo ou de outra pessoa para mudá-lo, mas acontece se alguém toma tempo e esforço para ser o que é – para estar plenamente investido em suas posições atuais".

Isso significa que a transformação não vem da negação de si, mas da awareness, da consciência plena de quem você é agora. Quando você para de lutar contra si mesmo, quando aceita radicalmente suas emoções, seus medos, suas limitações, algo se move. A energia que estava presa na resistência se libera e pode fluir em direção ao novo.

Um estudo publicado no Journal of Humanistic Psychology em 2018 demonstrou que a aceitação psicológica (um conceito próximo ao awareness gestáltico) está positivamente correlacionada com bem-estar emocional e capacidade de mudança comportamental. Paradoxalmente, aceitar-se como você é hoje facilita a mudança, enquanto rejeitar-se mantém você preso.


A Teoria de Campo: Suas Mudanças Transformam o Sistema


A Gestalt-terapia também nos oferece a teoria de campo, inspirada na física de Kurt Lewin. Segundo essa perspectiva, você não existe isolado. Você é parte de um campo relacional, um sistema dinâmico de interações. Suas mudanças internas não ficam contidas em você, elas reverberam no sistema todo.

Quando você se transforma internamente, o campo ao seu redor se reorganiza. As pessoas reagem de forma diferente a você, as portas se abrem ou fecham de outro jeito, as oportunidades aparecem ou desaparecem, porque você passou a ocupar outro lugar simbólico nesse campo. Você emite outros sinais, estabelece outros limites, comunica outras expectativas, mesmo que de forma não verbal.

Pense em um móbile: quando você move uma peça, todas as outras se reajustam. O sistema busca um novo equilíbrio. Da mesma forma, quando você muda sua posição subjetiva, as pessoas ao seu redor precisam se reposicionar também. Algumas se aproximam, outras se afastam. Algumas relações se fortalecem, outras se desfazem. Isso não é bom nem ruim, é apenas a reorganização natural do campo.

O terapeuta gestáltico brasileiro Walter Ribeiro, em seu livro Gestalt-Terapia: Refazendo um Caminho (2012), explica: "O campo não é algo externo ao indivíduo, mas a totalidade de forças que atuam sobre ele e das quais ele faz parte. Mudar o campo significa mudar a si mesmo, e mudar a si mesmo significa mudar o campo".


Locus de Controle Interno: A Percepção de Agência


A psicologia traz outro conceito fundamental para entender esse processo: o locus de controle, desenvolvido por Julian Rotter em 1954. Pessoas com locus de controle interno acreditam que têm agência sobre sua vida, que suas ações influenciam os resultados. Pessoas com locus de controle externo acreditam que os acontecimentos são determinados por forças externas, sorte, destino ou outras pessoas.

Pesquisas consistentes ao longo de décadas mostram que pessoas com locus de controle interno têm mais motivação, maior realização pessoal e profissional, e níveis mais elevados de bem-estar psicológico. Um estudo meta-analítico publicado no Psychological Bulletin em 2017, analisando mais de 200 pesquisas, confirmou essa relação: o locus interno está associado a melhor saúde mental, maior satisfação com a vida e melhor desempenho acadêmico e profissional.

Mas atenção: ter locus de controle interno não significa acreditar que você controla tudo. Isso seria onipotência, não agência. Significa reconhecer o que está ao seu alcance mudar e o que não está. Significa focar sua energia no que você pode influenciar, em vez de desperdiçá-la reclamando do que não pode controlar.

Como disse o psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e fundador da logoterapia: "Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está nosso poder de escolher nossa resposta. Em nossa resposta está nosso crescimento e nossa liberdade". Você não escolhe o que acontece com você, mas escolhe como se posiciona diante disso.


A Mudança Estrutural vs. A Mudança Superficial


É importante distinguir entre mudança superficial e mudança estrutural. Mudar de emprego, de cidade, de visual, de relacionamento – essas são mudanças externas que podem ou não refletir uma transformação interna. A mudança estrutural é aquela que acontece na forma como você se relaciona consigo mesmo, com seus afetos, com suas defesas psíquicas, com seus padrões inconscientes.

Freud já dizia que o objetivo da psicanálise não é eliminar o sofrimento (isso seria impossível), mas transformar o sofrimento neurótico em sofrimento comum. Ou seja, permitir que a pessoa sofra de forma mais saudável, sem ficar presa em repetições patológicas. A mudança estrutural é essa: não eliminar os problemas, mas mudar sua relação com eles.

Um exemplo prático: uma pessoa que sofre de ansiedade crônica pode aprender técnicas de relaxamento, mudar de rotina, evitar situações estressantes. Essas são mudanças superficiais que podem trazer alívio temporário. Mas a mudança estrutural acontece quando essa pessoa compreende a função psíquica da ansiedade em sua vida, reconhece os conflitos inconscientes que a alimentam, e desenvolve outras formas de lidar com a angústia existencial. Aí sim, a transformação é profunda e duradoura.


A Coragem de Olhar Para Dentro


Essa jornada de mudança interna exige coragem. Coragem de olhar para dentro, de se responsabilizar pelo que é seu, de parar de esperar que o mundo se ajuste primeiro. Porque o mundo não muda sozinho. Ele muda quando você muda.

Isso não significa que você é culpado por tudo que acontece na sua vida. Significa que você tem poder sobre como responde ao que acontece. E essa resposta, essa posição subjetiva, essa forma de estar no mundo – isso você pode mudar.

A psicanalista brasileira Maria Rita Kehl, em seu livro O Tempo e o Cão (2009), escreve: "A psicanálise não promete felicidade, promete verdade. E a verdade, ainda que dolorosa, é libertadora". A verdade sobre sua implicação nos seus padrões de sofrimento é dolorosa, mas é também o primeiro passo para a liberdade.


O Processo Terapêutico Como Facilitador da Mudança


A psicoterapia, seja de orientação psicanalítica ou gestáltica, oferece um espaço privilegiado para essa transformação. No setting terapêutico, você pode explorar seus padrões inconscientes, desenvolver awareness sobre suas defesas, experimentar novas formas de se relacionar, e integrar aspectos dissociados de si mesmo.

O terapeuta não muda você. O terapeuta cria as condições para que você se torne capaz de mudar a si mesmo. É como um jardineiro: ele não faz a planta crescer, mas prepara o solo, rega, retira as ervas daninhas, oferece luz. O crescimento é da planta.

Pesquisas em neurociência mostram que a psicoterapia produz mudanças mensuráveis no cérebro. Um estudo publicado na revista Psychiatry Research: Neuroimaging em 2019 demonstrou que pacientes que passaram por psicoterapia apresentaram alterações na atividade de regiões cerebrais associadas à regulação emocional e à autoconsciência. A mudança psíquica tem correlatos neurobiológicos.


E Você, Está Disposto a Mudar?


Então, sim: para as coisas mudarem, você precisa mudar. Não de forma superficial, trocando apenas o cenário externo, mas estruturalmente. E isso exige coragem de olhar para dentro, de se responsabilizar pelo que é seu, de parar de esperar que o mundo se ajuste primeiro.

A pergunta que fica é: você está disposto a se tornar quem você realmente é? Está disposto a abandonar as máscaras, os falsos selfs, as defesas rígidas que te protegem mas também te aprisionam? Está disposto a reconhecer sua implicação nos seus padrões de sofrimento?

Essa é a jornada mais difícil e mais libertadora que existe. E ela começa com um simples reconhecimento: se as coisas precisam mudar, eu preciso mudar. Se as coisas precisam melhorar, eu preciso melhorar. Não porque sou culpado, mas porque sou responsável. Não porque controlo tudo, mas porque tenho agência sobre minha posição subjetiva no mundo.

E quando você muda, o mundo muda com você. Não por mágica, mas por estrutura. Porque você é parte do campo, e o campo se reorganiza quando você se move.




Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.

Inscreva-se para receber os novos textos deste site!

2016 por patrícia cividanes

bottom of page